Pergunte a qualquer diretoria industrial sobre a letra G do ESG, e ela mostra o organograma de governança, o código de conduta, as atas de comitê. Pergunte sobre o E, e vem a matriz de emissões, o plano de resíduos, os indicadores de consumo hídrico. Pergunte sobre o S — a dimensão Social — e, na maioria das vezes, a resposta é uma lista de programas, não um número.
Isso não é falta de boa vontade. É um problema estrutural: Governança e Ambiental amadureceram em cima de disciplinas que já tinham métrica pronta — contabilidade, engenharia ambiental, direito societário. O Social nasceu depois, sem esse lastro técnico, e até hoje é tratado como terreno de intenção, não de dado.
Auditorias de ESG são boas em verificar processo: a empresa tem política de diversidade? Tem canal de denúncia? Tem programa de saúde mental? Sim, sim, sim — a lista de caixinhas marcadas cresce a cada ano. O que a auditoria de processo não responde é a pergunta que realmente importa para quem trabalha ali: as pessoas se sentem seguras, ouvidas e reconhecidas no dia a dia, ou a política existe só no papel?
Robert G. Eccles, um dos pesquisadores mais citados em sustentabilidade corporativa, vem alertando há anos para essa lacuna: métricas ambientais e de governança se consolidaram em padrões relativamente objetivos, enquanto a mensuração do capital humano e social continua fragmentada, inconsistente entre empresas, e frequentemente qualitativa demais para orientar decisão real.
Medir a dimensão Social com rigor comparável ao E e ao G significa ir além de "temos o programa" para "sabemos, com dado, se está funcionando". Isso pede instrumento — não pesquisa de clima genérica aplicada uma vez por ano e arquivada, mas diagnóstico estruturado, com dimensões claras (segurança psicológica, reconhecimento, pertencimento, justiça percebida, qualidade da liderança direta) e comparabilidade ao longo do tempo.
Sem isso, o relatório de sustentabilidade de uma empresa pode estar tecnicamente correto e, ainda assim, não dizer nada sobre a experiência real de quem trabalha na linha de produção. E é justamente aí que mora o risco reputacional que ninguém vê chegar: o primeiro processo trabalhista coletivo, o primeiro vazamento de queixa nas redes, o primeiro índice de rotatividade que não fecha a conta com o relatório ESG publicado meses antes.
Se um auditor pedisse hoje o dado — não o programa, o número — que sustenta a dimensão Social do seu relatório ESG, sua empresa teria algo mais sólido que boa intenção para mostrar?
Referência: Eccles, R. G., Ioannou, I., & Serafeim, G. (2014). The Impact of Corporate Sustainability on Organizational Processes and Performance. Management Science.
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